

Aristocrata Taciturno
Abaixo tem um gostinho do que vem por aí!
Só para os meus VIPs. Aproveitem!
Prólogo 1 — DMITRI
Zahara, Sankt Zara
Domingo, 17 de maio de 2015
10:50
A princesa Nina Olympia Glücksburg-Vorontsov não queria sair do carro.
— Dima, está chovendo.
Só duas pessoas no mundo o chamavam assim: ela e Konstantine, irmão mais velho dele e rei de Zahara.
Nina inclinou a cabeça e usou os olhos azuis, que sabiam o poder que tinham. Era sempre o prenúncio de um pedido.
— Está garoando — corrigiu Dmitri, ajustando Piotr no braço esquerdo. — Garoa não é chuva.
A boca do neném estava entreaberta, quase babando sobre o uniforme. Com seis meses de vida, Piotr dominava a arte de molhar as peças de roupas protocolares melhor que a chuva. Dmitri pegou um paninho na bolsa entre eles e colocou sob a cabecinha do filho. Então, encarou a esposa. Com vinte e três anos, pele translúcida, olhos azuis e cabelo loiro até os ombros, Nina era uma mulher que entrava em um cômodo e fazia o ar mudar, não pela beleza, embora essa fosse inegável, mas pelo encanto de boneca.
Isso o aterrorizava e o enfeitiçava.
— Garoa é chuva que não tem coragem de se assumir. E eu lavei o cabelo hoje de manhã.
O vestido de seda creme era leve e o fazia pensar em bailarinas e em jardins de verão, e Nina tinha a clara intenção de mantê-lo impecável. Segundo ela, era preciso passar a imagem de que estava tudo bem, mesmo que não estivesse. Se aparecesse molhada e desgrenhada, isso refletiria no reino. Principalmente com os protestos.
— Nina — disse seu nome com a paciência de quem já havia tido essa conversa cem vezes. — É a inauguração da biblioteca. Com o seu nome. Fazemos um discurso de três minutos, cortamos uma fita e vamos embora.
— E se Piotr chorar?
— Está dormindo.
— Sim, agora. Piotr tem um talento especial para acordar no momento exato em que estou sendo fotografada. Um sensor para câmeras. — Nina esticou o pescoço para olhar pela janela. — E seu irmão e Verushka ainda não chegaram.
— Devem estar presos no tráfego.
— Vão nos atrasar — resmungou, com um biquinho.
Havia gente, muita gente. Do lado esquerdo da rua, atrás das barreiras, cidadãos acenavam com bandeirinhas de Zahara, vermelhas e brancas. Havia crianças de escola com cartazes desenhados à mão: BEM-VINDOS.
Mas, do lado direito, separados por uma fileira de policiais, um grupo menor e mais ruidoso do Movimento para a Democracia de Zahara, o DEZA, agitava placas de papelão: DEMOCRACIA PARA ZAHARA; ABAIXO A MONARQUIA; O POVO NÃO PRECISA DE PRÍNCIPES.
— Aquelas pessoas estão gritando.
— Os chatos de sempre. Barulho sem voto. — Apontou para o chefe da segurança. — James Alcoa tem a situação controlada.
— Não parecem muito controlados.
— Parecem o que são: barulhentos e inofensivos. — Fez uma pausa. — Ou pelo menos, foi o que os relatórios garantiram.
Nina respirou fundo. A respiração que antecede um sacrifício de proporções épicas, ou, no caso dela, uma caminhada de trinta metros debaixo da garoa.
— Está bem — disse, com a resignação de uma mártir a caminho da fogueira. — Você me compensa.
Ele assentiu.
— Hoje à tarde? — Deu um sorriso que era só para ele, pequeno, privado, sensual.
Sempre que ela sorria assim, Dmitri esquecia as vontades, as manias, a lista inteira de motivos. Queria largar tudo – a inauguração, o carro, o país – levá-la para casa, trancar a porta e fodê-la a tarde toda. E a noite também. Talvez fizesse isso. Quando saísse dali.
— Hoje à tarde.
— Piotr fica com Darinka. — Nina alisou o vestido. Verificou o cabelo no espelho do para-brisa. — Ela vai adorar.
— Darinka sempre adora — concordou, já imaginando como iria recompensá-la.
— Preciso pensar no que quero. — A voz abaixou um tom, só para ele. — Faz muito tempo que não temos uma tarde inteira só para nós, Dima. Você sabe.
— Sei bem, mas pense depressa. Não queremos chegar atrasados.
Os olhos dela brilharam de um jeito que não tinha nada de princesa e ela sussurrou no seu ouvido:
— Vamos foder a tarde toda. Do jeito que eu quiser.
E saiu do carro com a graciosidade de quem havia sido treinada em etiqueta real desde que nasceu, deixando-o de pau duro, amaldiçoando a garoa, os manifestantes e também a agenda que tinha que cumprir.
Mais tarde, ele iria fazê-la pagar por isso. Nina sabia como deixá-lo enlouquecido, mas ele era mais experiente. Sorriu, antecipando as horas seguintes. Ajeitou-se dentro da calça, porque não se sobe a escada de uma inauguração pública naquele estado, e saiu pelo outro lado com Piotr.
O bebê se mexeu, fez uma careta que era réplica exata da que Nina fazia quando algo a incomodava, sobrancelhas enrugadas, um protesto mudo contra a luz e o barulho. Depois, se acomodou contra seu peito e voltou a dormir.
Do outro lado da rua, os manifestantes do DEZA elevaram os gritos.
— DEMOCRACIA! FORA COM A REALEZA!
Placas subiam e desciam em ritmo irregular.
James Alcoa, junto à porta da biblioteca, fez um gesto quase imperceptível, mão direita tocando o ouvido, lábios se movendo, e dois seguranças à paisana se reposicionaram, flanqueando-os.
— Tudo tranquilo? — perguntou Dmitri, varrendo a rua com os olhos.
— Controlado, Alteza, mas estamos atentos. Eles estão mais agitados.
— Sua Majestade? — indagou, porque não conseguia ver a limusine que deveria trazer seu irmão mais velho e sua meia-irmã, que cogovernava com ele.
— Estão presos no trânsito. Pediram para que fossem dando início à cerimônia.
— Certo.
Dmitri acenou para a população e subiu os degraus da biblioteca com Nina. Cumprimentaram a diretora do projeto, uma mulher de meia-idade com óculos grossos e a ansiedade de quem recebe realeza pela primeira vez na vida, mas sua esposa sorriu, fazendo o que ela fazia de melhor: transformar obrigação institucional em algo genuíno. Porque Nina não fingia interesse, tinha interesse. Em bibliotecas, em escolas, em crianças que liam, em qualquer coisa que envolvesse livros e pessoas e a ideia simples de que o mundo ficava melhor quando as pessoas podiam pensar.
O discurso seria de Nina. Três minutos. Dmitri ficaria atrás, com Piotr no braço, um peso bom, vivo, quente, a maior prova de que seu amor por aquela mulher havia dado certo, apesar das apostas contra. Não se importava. Gostava daquele lugar, o de quem sustenta sem aparecer. Era um príncipe de Zahara, o segundo mais velho do primeiro casamento do pai. Poderia reivindicar o centro do palco sempre que quisesse; mas preferia não querer. Nina brilhava de uma forma que Dmitri não tinha interesse em replicar, e criar espaço para ela ser a estrela era a melhor coisa que fazia como marido. A monarquia de Zahara era uma das poucas no mundo que ainda governava um país e, se ele podia dar à esposa o palco que ela merecia, o faria.
— Bom dia, meu amado povo de Zahara! — disse Nina do púlpito, acenando.
O povo respondeu em um urro coletivo, com aplausos, assobios, e o mundo ficou nítido de uma forma que só ficava quando havia perigo real.
Dmitri sentiu antes de entender: a vibração nos pés, a frequência que o corpo de militar reconhecia antes de a consciência traduzir. Os gritos do DEZA mudaram de tom. Não mais slogans. Algo diferente, animal.
Uma sirene rasgou o ar e uma van de ambulância invadiu a rua, vinda do nada.
— BOMBA! — Uma mulher trepou por cima da fila de policiais. — SAIAM! CORRAM!
O corpo de Dmitri decidiu antes de a mente ter terminado de ouvir a última palavra. Pensar é um luxo que bombas não permitem. A mão direita agarrou o ombro de Nina, que estava de costas, e, sem a menor delicadeza, arrancou-a do púlpito. O ombro dela era pequeno sob sua mão, e ele registrou isso mesmo ali, no meio do fim do mundo: como cabia pouca coisa numa mulher.
A diretora gritou. Alguém caiu.
— BOMBA! — Um homem de uniforme policial correu em direção à multidão. — PARA TRÁS!
Dmitri empurrou Nina em direção às portas abertas do prédio. Para o interior das paredes grossas, que eram a única coisa entre ela e o que estava prestes a acontecer. Nina voou para dentro, para a proteção dos dois metros de pedra que ele havia medido com os olhos ao subir para o pódio e classificado como abrigo.
Alcoa veio em sua direção, gritando alguma coisa e coordenando seguranças, mas Dmitri não esperou, virou-se de costas para a rua e curvou-se sobre Piotr. Costas, ombros, nuca transformaram-se em um escudo. Os braços fecharam-se sobre o bebê, uma mão na cabeça do filho, a outra nas costas, apertou-o contra o peito.
Piotr acordou e gritou, um grito de bebê assustado que era, em qualquer idioma, a mesma coisa: medo puro.
A onda de choque chegou antes do barulho ensurdecedor, pura pressão física, o ar transformado em parede, mil mãos abertas explodindo nas suas costas.
A luz branca ultrapassou até suas pálpebras espremidas.
Calor.
Fogo.
A carne queimando debaixo do uniforme.
Algo atingiu sua coluna. Pesado. Cortante. As pernas cederam, a dor tão forte fez com que ele caísse para a frente, com Piotr em seus braços. O impacto arrancou o ar dos pulmões, mas o filho chorava, o que significava que o escudo havia funcionado.
Porém, o som mudou de explosão para pedra cedendo. A biblioteca estava desabando. E dentro estava Nina.
Dmitri tentou se virar. O corpo, a coluna, tudo junto disse não.
O mundo ficou branco. Cinza. Preto.
Foi ali, em um último lampejo de consciência, com Piotr ainda vivo, berrando quente dentro do casulo do seu peito, que ele entendeu. Havia escolhido o lugar mais perigoso de todos.
Depois, o príncipe Dmitri Leonidas von Zahara Vorontsov não viu, nem ouviu mais nada.
Absolutamente nada.
Prólogo 2 — SCARLET
Zahara, Sankt Zara, Dilkiso Palats
Terça-feira, 03 de novembro de 2015
14:00
A princesa Scarlet bint Mohamed Al-Adaman não queria se casar com o rei Konstantine Vorontsov.
Não queria se casar com ninguém, na verdade, pelo menos não assim: entregue por contrato; negociada entre dois homens com a mesma eficiência com que negociavam camelos e cavalos. Porém, se havia algo que vinte e um anos como filha do sheik Mohamed ensinaram, foi o seguinte: o que ela queria não interessava e não constaria em nenhuma cláusula.
Então, ali estava ela, no escritório do rei de Zahara, seu noivo, sentada em uma poltrona de couro, com um vestido verde que realçava seus olhos, porque sua beleza era a única arma que podia usar naquela sala. O pai e Konstantine mandavam e desmandavam, sem perguntar a ela se estava de acordo com suas decisões, assim como a princesa Verushka, irmã do rei. Os outros príncipes – altos, musculosos e viris – mais pareciam modelos saídos de revistas. Eram ministros de uma coisa ou outra do reino, e Scarlet não entendeu direito o que faziam ali. Principalmente o maior deles: tinha o par de olhos azuis mais impressionante que ela já tinha visto.
Do tamanho do rei, o tal príncipe era enorme. Alto, largo, forte de um jeito que ocupava o espaço sem precisar se mover. Os ombros enchiam o terno escuro com a insolência de quem foi construído para outra coisa que não os salões. A barba era cerrada e bem-cuidada. A postura de militar, mesmo sem uniforme. Tudo nele gritava: perigo.
E ela não deveria estar olhando para o irmão do noivo daquele jeito.
— Não entendi por que a pressa desta nova reunião se estivemos aqui há apenas alguns dias — reclamou o sheik Mohamed bin Awad Al-Adaman ao se acomodar na poltrona.
O estômago de Scarlet se contorceu e, quando abriu a boca, a frase errada saiu.
— Tive que desmarcar o encontro para escolher o sapato que iria usar no casamento — disse, jogando para trás a cabeleira ruiva com um muxoxo que soou, na acústica impecável do escritório, tão fútil quanto era.
O olhar do pai cortou na sua direção, afiado, ordenando-lhe, sem mover os lábios, que calasse a boca. Sabia que não deveria ter falado, antes mesmo de abrir a boca. Sapatos. Ela tinha dito sapatos. Era o que os nervos faziam com ela desde os quatorze anos: entregavam a menina fútil e recolhiam a princesa. No entanto, aquela era a sua personagem: uma armadura ridícula que vestia quando o medo ficava grande demais para caber dentro dela.
E o medo era grande até para ser contido pelas paredes daquela sala.
Konstantine recostou-se na cadeira. Aos trinta e oito anos, tinha os traços esculpidos em pedra e olhos que Scarlet nunca conseguia ler de tão escuros. Podiam significar qualquer coisa: fúria, tédio, cálculo. Frieza, com certeza. Era bonito de um jeito que a intimidava em vez de atrair.
— Tal não teria acontecido se a senhorita tivesse enviado todos os exames solicitados. — A voz era controlada, cada sílaba medida. — A lei de Zahara exige que eu me case com uma mulher pura e preciso que tal fato esteja atestado por um médico. Nosso Ministro das Relações Exteriores, Sua Alteza Real, o príncipe Maxim — gesticulou para o irmão —, pediu à embaixada de Ras Adaman que enviasse um atestado, porém até o momento não recebemos a documentação. Tendo em vista que o casamento se aproxima, sugiro que a princesa se consulte com o nosso médico real.
Pura.
A palavra ficou pendurada no ar, obscena na sua crueza. Ele queria dizer: virgem. O sinônimo não escondia que o homem queria uma mercadoria sem uso prévio.
O rosto ficou quente, mas não corou, pois aprendeu a controlar o influxo de sangue antes que ele chegasse à pele aos quatorze anos, no internato suíço, quando uma colega disse que árabes não coravam. Decidiu que nunca mais daria a ninguém a satisfação de ver a vergonha subir e manchar sua pele clara, igual à da sua mãe.
O pai não se abalou. Vinha de um país de cultura machista, e pureza feminina era assunto administrativo, não emocional.
— Claro, Scarlet pode se submeter ao exame imediatamente e depois voltar aos seus afazeres.
A escolha do sapato, presumivelmente.
A princesa Verushka se levantou. Alta, elegante, com aquela competência silenciosa que Scarlet admirava e invejava.
— Se quiser me acompanhar, Scarlet…
Ela se ergueu sem uma palavra e seguiu Verushka para fora da sala com a coluna reta, o queixo erguido e os dedos fechados dentro da palma com tanta força que as unhas deixaram marcas em forma de meia-lua.
O corredor do Dilkiso era longo, frio e silencioso.
— Vai ficar tudo bem — disse Verushka, sem olhar para ela.
Scarlet não respondeu. Porque não ia ficar. Sabia disso do mesmo jeito que sabia ser virgem e nunca ter estado com homem nenhum.
O hímen, porém, era outra história, porque hímenes não vinham com manual de instruções e o dela havia se rompido de alguma maneira: cavalgada, exercício, salto na piscina. Ela nunca soube quando, nem por quê. Sua médica em Ras Adaman explicou que isso era muito comum em mulheres ativas fisicamente, mas que não poderia atestar que ela tinha um hímen intacto, se ela não tinha. Foi por isso que o atestado nunca chegou a Zahara.
O pai não sabia e não acreditaria nela.
Ninguém ia acreditar nela.
E agora ali estava ela, na ala médica do palácio, um avental sobre o corpo nu. Um homem a examinava para atestar a um rei – que a olhava com a mesma emoção de quem lê relatórios fiscais – que ela era mercadoria intocada.
Smirnov foi profissional, cortês. Pediu permissão antes de cada etapa. Scarlet fixou os olhos no teto durante os sete minutos inteiros que o exame durou. Contou as lâmpadas fluorescentes: quatro, cada uma com duas barras. Oito barras de luz branca e fria iluminando o momento mais degradante da sua vida.
Na volta ao escritório, Verushka caminhou ao lado dela em silêncio, apesar de parecer querer dizer algo, com o Dr. Smirnov logo atrás.
O pai se levantou, as vestes brancas farfalharam.
— Bom, já temos a comprovação da pureza da minha filha e o seu médico poderá providenciar o atestado.
Konstantine se levantou também, junto com os outros.
— Majestade…
— Dr. Smirnov, o senhor tem algo a nos dizer?
O médico arrastou os pés, olhou para baixo e limpou a garganta. Scarlet sentiu o chão começar a se abrir debaixo dos sapatos caros.
— A princesa Scarlet Al-Adaman não possui mais um hímen intacto.
— Não é verdade!
A voz saiu antes do pensamento. Alta, aguda, desesperada, de um jeito que Scarlet se odiou por demonstrar, porque era a confirmação que todos esperavam. Inocentes não gritam. Culpados, sim.
O silêncio que se seguiu foi pesado e ocupou a sala inteira.
O pai se virou.
Conhecia aquele movimento: a rotação dos ombros, o peso transferido para a perna da frente, a mandíbula travada. Conhecia porque já havia visto antes, dirigido a empregados. Nunca a ela. Até esse momento.
A mão aberta estalou no seu rosto e o impacto a jogou longe. Não por causa da força, embora fosse considerável, mas Scarlet caiu porque o chão sumiu. Porque o mundo, que já era instável, inclinou de vez. Porque o pai, que deveria ser a última pessoa a machucá-la, acabava de provar que não existia isso. Todos eram capazes de machucá-la. E ninguém era um porto seguro.
— Sua vagabunda. Você é igual à sua mãe.
O tapete do escritório era macio. Persa. Scarlet registrou isso com a clareza absurda que o choque produz: a textura da lã contra a bochecha queimando, o padrão geométrico vermelho e azul a centímetros dos olhos, o cheiro de lã secular e poder ancestral.
Mesmo caída no chão, Scarlet notou que Konstantine deu um passo em sua direção, mas outra mão, forte e masculina, chegou antes e a levantou. Ela nem teve coragem de olhar para o rosto de quem a ergueu – nem para agradecer.
O sheik não a olhou, virou-se para o rei e disse:
— Peço perdão, Vossa Majestade, pela impureza da minha filha.
— Por favor, niet.[i] — A voz do rei era consternada, e Scarlet não sabia se pela impureza dela ou se pela reação do pai. — Ela é jovem. Isso acontece…
— Não na minha casa! — rosnou o sheik, lívido, sacudindo a cabeça. — O contrato está quebrado. Que vergonha! Vou avisar ao meu gerente que vocês irão entrar em contato para devolver a quantia que já foi depositada a título de dote.
Do outro canto da sala, uma voz grave e controlada, sem nenhuma emoção audível, contemporizou:
— Não precisa ser assim. Ninguém precisa saber que sua filha não é mais virgem.
O sheik fitou-o, sem entender.
— Só o rei precisa se casar com uma mulher virgem. Sou o segundo homem na linha sucessória. Eu posso me casar com uma mulher impura. Podemos manter o casamento para o dia dezessete de dezembro, como já estava marcado. Basta fazer uma modificação no contrato e um anúncio de que nos apaixonamos durante o período em que a princesa esteve aqui. O povo adora histórias românticas.
O sheik estancou no meio da sala, processou o que foi dito, pois parecia não conceber algo assim.
— Você não se importa de se casar com uma mulher que foi tocada e violada por outros homens?
Scarlet fechou os olhos por um segundo, tentando se controlar, mas as lágrimas vieram sem permissão e ela odiou cada uma delas. Odiou mais ainda o que fez em seguida. Chorando, jogou-se de joelhos aos pés do pai, agarrou as vestes brancas, a voz saindo estrangulada:
— Baba[ii], é mentira. — Ele nem se dignou a olhar para ela. Talvez, se estivessem sozinhos, a chutasse para longe. — Wallahi[iii], nunca estive com homem nenhum, pai. Wallahi.
Dmitri se adiantou. Levantou-a do chão com delicadeza e eficiência. Ofereceu um lenço branco, macio, com as iniciais D e V bordadas em carmim escuro e o entregou com a mão esquerda. O gesto mais antiquado e mais gentil que alguém já fez por ela.
E então olhou para o pai dela.
— Mantemos o contrato e o casamento, Vossa Alteza. Faremos o anúncio hoje e, no dia dezessete de dezembro, o senhor retorna, realiza a transferência dos outros cinquenta por cento do dote e me entrega a sua filha — ele fez uma micro pausa e completou: —, como se virgem ela fosse.
Como se virgem ela fosse.
O homem que acabava de salvá-la disse aquilo em voz alta. Na frente do pai, na frente do rei, na frente do médico que ainda segurava a prancheta com o laudo.
Salvou e cobrou na mesma frase. Registrou o defeito da mercadoria, comprou assim mesmo e fez questão de que todos naquela sala soubessem o que ele estava levando.
Scarlet sentiu duas coisas ao mesmo tempo: alívio e vontade de cuspir nele. Ficou ali, de pé, com o lenço branco na mão e a bochecha latejando e o orgulho em frangalhos, tentando entender e se entender.
Um homem que não a conhecia se voluntariou para se casar com ela. Não por amor, não por atração, não por nada que tivesse a ver com ela enquanto pessoa. Por princípio, por contrato, pela mesma razão pela qual se conserta uma cláusula quebrada: porque alguém precisa assinar.
Eu posso me casar com uma mulher impura. Como se virgem ela fosse.
As duas frases iam ficar para sempre marcadas na sua mente. Iam grudar nela e iam arder assim como as lâmpadas fluorescentes, o tapa, os fios macios do tapete persa.
Porém, por baixo das frases, por baixo da humilhação e da raiva e da vergonha, havia outra coisa. Pequena. Quase invisível.
Ele se ofereceu em sacrifício e isso ia evitar que seu rosto fosse de novo estampado nas páginas das revistas de fofocas. Não sabia o porquê: se era bondade, dever, cálculo político, pena, ou uma combinação incômoda de tudo. Não importava, porém, além do fato de que em uma sala cheia de homens poderosos – onde o próprio pai bateu na filha e o noivo a condenou por não ter um hímen intacto – o viúvo silencioso, o soldado com cicatrizes, se ofereceu para salvá-la da vergonha pública.
Era pouco, quase nada. Foi a única coisa boa que aconteceu naquela sala.
E foi nesse momento, com o lenço quente amassado entre os dedos, que Scarlet o viu de verdade pela primeira vez.
Alto, largo, sólido, forjado para a guerra – e para o pecado –, ele obrigava Scarlet a erguer o rosto para ver seus ombros porque, se olhasse reto, seus olhos batiam no peito dele. Ela, que nunca se considerou uma mulher pequena, perto dele era baixa. Havia nele uma rusticidade que nem a elegância impecável do terno feito sob medida conseguia disfarçar. Era ridículo pensar que lã italiana pudesse domesticar um homem daqueles. No máximo, embrulharia. A barba escura acentuava a quase brutalidade dos traços e a largura do pescoço, dando-lhe um ar primitivo, selvagem.
De perto, podia ver que alguma coisa havia acontecido do lado direito do rosto dele e que a barba era um disfarce do desenho estranho que foi feito ali. Talvez ele não fosse príncipe, mas alguém de uma linhagem mais antiga do que qualquer trono.
Com o pai a três metros de distância e a bochecha ainda ardendo do tapa, Scarlet pensou em cavernas, em fogueiras, em chão de peles. Em lobos e ursos e fumaça no cabelo. Em um homem que não pediria uma mulher, levaria. Arrastando-a talvez.
Para o inferno, com certeza, porque ela estava pecando ao pensar assim sobre o irmão do noivo.
Demorou meio segundo para se corrigir: ex-noivo. Porque Konstantine agora era oficialmente mais um de seus ex, e ela podia, sim, pensar assim sobre o homem ao seu lado.
Porque, agora, ele era o seu noivo. Scarlet sentiu um calor descer pela espinha ao imaginar aquelas mãos enormes fechando-se em sua cintura e jogando-a sobre o ombro. Então, se ele quisesse levá-la para uma fortaleza coberta de neve ou a tal caverna com peles e uma fogueira no fim do mundo… pouco importava, contanto que fosse agora mesmo.
Não era romance. Scarlet sabia distinguir uma coisa da outra.
Durante trinta minutos, naquela sala, os homens decidiram quanto ela valia usando uma membrana como unidade de medida. Ninguém perguntou o que ela queria. Nem o pai, que a vendeu. Nem o rei, que devolveu a mercadoria. Nem o médico cortês, que a abriu e a examinou, pedindo licença antes de cada etapa, como quem abre uma correspondência endereçada a outra pessoa.
Querer esse homem foi a primeira coisa que aconteceu dentro dela sem autorização de ninguém. Ele seria dela. Não constava em cláusula nenhuma, não havia sido negociada, não valia dote. E, se ela ainda era capaz de querer alguma coisa, então sobrou alguém ali dentro para querer.
Scarlet apertou o lenço na mão, endireitou a coluna, ergueu o queixo e decidiu, ali, naquele escritório que cheirava a mogno e a poder e a sangue no lábio, que a princesa Scarlet bint Mohamed Al-Adaman iria se casar com o príncipe Dmitri Vorontsov.
Não por gratidão, mas por sobrevivência e por uma curiosidade feroz, teimosa e irracional de entender que espécie de homem era aquele, e, porque queria sentir aquele corpo pressionando o dela.
E aprenderia a ser tão bárbara quanto ele.
***
Trinta minutos.
Foi o tempo que demorou para o mundo virar de cabeça para baixo, dentro de um escritório sofisticado, moderno, mas com um ar de ameaça antiga.
A irmã mais nova de Konstantine, a princesa Darinka, apareceu no corredor com o estojo de maquiagem aberto antes mesmo que Scarlet dissesse uma palavra – ela não perguntou como –, e dez minutos de trabalho cobriram o vermelho na bochecha direita e o corte que os dentes fizeram no canto do lábio, com uma eficiência de quem havia coberto marcas antes, o que impediu Scarlet de desmoronar.
No entanto, a dor ficou.
E, com ela, uma desconfiança incômoda. Tudo havia sido rápido demais. O embaixador puxando o assunto do exame, o rei cobrando uma exigência que poderia ter deixado passar, o príncipe com a solução já pronta na ponta da língua. Talvez fosse só o choque procurando um culpado. Mas, por um segundo, Scarlet teve a sensação nítida de que não havia sido salva de armadilha nenhuma – só movida de um tabuleiro para outro.
Contar ajudava. Sempre ajudou.
Do escritório até a antecâmara da varanda foram trinta e quatro passos, duas portas duplas e seis degraus, o último mais alto que os outros, que quase a derrubou nos saltos. Quem contava não perdia nada pelo caminho. Nem um degrau, nem uma humilhação, nem o detalhe de que foi o embaixador quem puxou o assunto do exame antes de qualquer outra pessoa.
Números eram os aliados que Scarlet tinha.
— … se apaixonaram perdidamente, de forma inesperada, um amor que o reino de Zahara recebe com alegria.
Konstantine terminava o pronunciamento na varanda do Dilkiso e as portas abertas deixavam passar a convicção calculada de quem governava há anos e sabia quanto peso dar a cada palavra.
— É sobre nós dois que seu irmão está falando? — perguntou para o atual noivo, olhando-o de perfil.
Se ela se virasse de frente, seria pior, ele veria tudo: a bochecha que ainda doía sob a maquiagem de Darinka, a respiração que insistia em sair curta, o pulso descompassado por motivos que iam além do tapa do pai.
Assim, ela ainda conseguia fingir que estava bem.
— Perdidamente apaixonados — debochou Dmitri, baixo o suficiente para só ela ouvir.
— Sua Majestade está sendo… um pouco generoso com os detalhes, não? — sugeriu, o tom mais frágil do que pretendia.
Só de estar parada ao lado daquele homem enorme e quieto, o corpo dela já fazia coisas que ela não autorizou. O coração tropeçou no próprio compasso. Um calor traiçoeiro subiu pela nuca. Os pelos do braço esquerdo, mais perto do dele, estavam eriçados, seu corpo detectando a presença masculina antes dela mesma.
— Não se preocupe. Konstantine sabe mentir bem — avisou Dmitri.
Lá embaixo, na praça em frente ao palácio, já se formava uma aglomeração. Não eram muitos, mas o suficiente para fazer barulho, para atrair as câmeras dos correspondentes que se posicionavam dia e noite ao redor da realeza, esperando por um furo jornalístico. Gente acenando, bandeirinhas de Zahara. Placas feitas à mão e às pressas, que Scarlet não conseguia ler daquela distância.
O rei chegou ao fim do discurso e os aplausos soaram, animados.
— Eles vão querer ver toda essa paixão — disse, a voz tremendo um pouco, enquanto as portas se abriam.
Ele sorriu em resposta e deu um pequeno puxão em sua mão para que ela o acompanhasse para a varanda.
— Eu sei e vão ver — afirmou ele.
— Vão?
Se ele respondeu, ela não ouviu porque o público ovacionou quando eles pisaram juntos na varanda.
Konstantine cumprimentou o irmão com dois beijos no rosto e um abraço e então pegou as duas mãos de Scarlet nas dele, dobrou o corpo ao meio e trouxe-as até os lábios, beijando-as, quase fazendo uma reverência para ela.
— Espero que sejam felizes — disse e depois colocou a mão direita dela na esquerda de Dmitri.
Scarlet entendeu que aquilo era tudo o que ela ia receber como pedido de desculpas do rei.
Konstantine Vorontsov nunca diria as palavras, pois reis ajustavam contratos, casamentos, aparências. Também escolhiam onde pousar a boca, e em vez de beijar o ar acima das mãos dela como o protocolo exigia, beijou a pele. Em público, diante das câmeras, curvando-se para a mulher que ele humilhou meia hora antes na frente de toda Zahara. Não apagava o tapa do pai, o impura, o vagabunda, nem o que havia acontecido. Não apagava nada, mas era uma desculpa mesmo assim.
— Obrigada.
Scarlet devolveu um sorriso treinado de princesa e percebeu, em algum lugar atrás do esterno, que aceitou o pedido de desculpas dele.
Porque ela tinha problemas maiores para resolver e um deles, segurando sua mão, ocupava a varanda inteira, a praça toda, Zahara. Sua mente. E, pior: fazia algo com seu corpo. Desde quando um homem que ela não conhecia fazia isso apenas tocando na sua mão? E mais: quando foi que ela permitiu que isso acontecesse?
— Acene — lembrou ele.
Ela obedeceu, mas ainda estava preocupada. Eles eram dois adultos, de pé em uma varanda, acenando, seus corpos unidos somente pelas mãos, com a ficção de um romance apaixonado entre eles e precisando demonstrar isso.
As bandeirinhas se mexiam todas ao mesmo tempo, vermelhas e brancas, uma massa sem número. Scarlet desistiu delas e voltou para a pedra, que ficava parada e deixava ser contadas. As colunas da praça não davam para contar. Estavam longe demais, embaixo demais. As da balaustrada eram dezoito, entre ela e a queda.
O próprio pulso também não deu. Havia perdido o compasso desde que a mão de Dmitri se fechou sobre a dela e não voltava por ordem nenhuma.
Como é que eles iam fazer para convencer o povo de que eram apaixonados?
— Scarlet.
Ela se assustou e ergueu os olhos. Foi a primeira vez que ele disse seu nome e soou íntimo, convidativo.
— Sim?
Ele deu um passo em sua direção. A mão espalmou seu rosto, girou-o de frente para ele. Seu cheiro a envolveu – limpo, masculino, com algo amadeirado por baixo – e se instalou em algum lugar, dentro do peito, protegido do mundo, onde Scarlet preferia que ninguém entrasse. O braço enlaçou sua cintura, puxou-a mais para perto de uma vez. Ela soltou um gritinho.
— Calma. — Ele deu um sorriso torto, como se estivesse achando graça. — Relaxe…
E, então, antes que ela tivesse decidido qualquer coisa, seus lábios roçaram os dela, a língua deslizando macia, insistente sobre a sua boca.
Por uma fração de segundo, Scarlet pensou em recuar. Apesar de todas as razões treinadas desde a infância para manter as princesas no lugar, sentiu-se compelida a obedecer, manter a ordem e a compostura.
Não o fez. Fez pior: ela se esqueceu de que aquilo era um teatro com roteiro. Esqueceu o tapa, a humilhação, as lâmpadas fluorescentes. Esqueceu que havia dezenas de câmeras filmando, quase mil pessoas embaixo testemunhando e que o mundo inteiro iria assistir mais tarde. E se entregou ao beijo, às mãos, ao corpo enorme pressionado contra ela.
Porque a boca de Dmitri era quente, faminta, mas paciente. Scarlet entreabriu os lábios e a língua dele entrou com uma autoridade tranquila, como se ela já fosse dele. Ele inclinou-lhe o rosto, tomou sua boca e enroscou-se nela com uma lentidão deliberada que não tinha nada de público. Era um beijo de quarto trancado. Um beijo de homem que sabia exatamente o que queria fazer com a mulher que estava beijando.
Os mamilos endureceram contra o tecido fino do vestido – e não era por causa do frio –, um calor líquido desceu pelo sexo, os joelhos amoleceram. Foi o braço de Dmitri na cintura que a manteve de pé, e Scarlet teve uma certeza absurda, na varanda do Dilkiso, em pleno novembro, com Zahara e o mundo olhando, que ela deixaria aquele homem fazer o que quisesse com ela. Ali. Naquele segundo.
Ele respondeu com o corpo. A mão apertou sua nuca um pouco mais; a outra desceu da cintura para a base das costas e a palma aberta espalhou-se contra a curva da bunda, segurando-a com posse, e colou-a nele.
Scarlet sentiu contra a barriga a ereção dura e grossa. Inconfundível. Um som baixo escapou da sua garganta, não em protesto, mas em rendição.
Dmitri recuou antes dela, que levou um segundo a mais para abrir os olhos e se dar conta de onde estava: agarrada à lapela do terno dele, amassando o tecido caro. As unhas da outra mão enfiadas nos músculos do bíceps denso.
Dmitri sorriu de leve para ela e sussurrou:
— Eles já estão convencidos. Agora, acene.
— Ah… — Ela piscou duas vezes e se endireitou. — Claro.
Ficou de frente para a praça. Sorriu e acenou. O beijo era só o roteiro da vida real sendo cumprido por atores que os homens da sala haviam escolhido, sem consultá-la.
Scarlet procurou pelo número e encontrou um vazio.
Não sabia quanto tempo o beijo havia durado. Cinco segundos? Vinte? Sessenta segundos diante de Zahara e do mundo inteiro?
Não sabia. Quatro lâmpadas e oito barras de luz branca. Seis degraus. Dezoito colunas de pedra. Contava desde os quatorze anos e nunca, nem uma vez, havia perdido uma conta.
Perdeu aquela.
Sankt Zara
Quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Fazia cinco semanas desde o beijo não-tão-coreografado na varanda do Dilkiso, que enganou o mundo inteiro, e anunciou ao mundo o noivado dele com a princesa Scarlet. A noiva ainda não tinha voltado a Zahara.
Dmitri reconhecia a estratégia porque teria feito o mesmo. Sabia que ela estava protelando e aproveitando cada hora de liberdade antes de entregar a vida a um estranho que não desejava, a uma família que não escolheu e a um país que não conhecia.
A cerimônia religiosa deles estava marcada para quinta-feira e Scarlet deixou para chegar no último momento que o protocolo tolerava, sem configurar uma afronta, e nem um minuto a mais.
Entendia, não a respeitava menos por isso, mas isso não queria dizer que não estava aborrecido. Para quem não o conhecia, a imagem era de controle absoluto, até com uma pitada de tédio, mas ele precisou relaxar os músculos do rosto, que estavam retesados, e regularizar a respiração, controlada demais para ser natural.
Não era só a expectativa de rever a noiva. Ele a havia beijado numa varanda, em um espetáculo público de luxúria, diante do país inteiro, e ela não demonstrara o menor interesse em repetir. E ele tinha. Era isso que o irritava.
Seis meses e vinte e três dias não eram tempo suficiente para o luto cicatrizar a ferida da perda, mas Dmitri havia descoberto, nas noites frias, que o luto não se resumia à saudade. Era também um rancor surdo que ele nunca admitiria em voz alta. Odiava acordar no meio da madrugada e estender a mão para o lado vazio da cama. Odiava que o café da manhã nunca tivesse o gosto certo porque Nina era quem dava as ordens para a cozinheira do que preparar. Odiava a si mesmo por odiar isso; por sequer pensar, em um pensamento que ele esmagava antes de completar, que ela o havia deixado sozinho com um bebê, com cicatrizes que ardiam no frio, e com a obrigação de fingir que estava inteiro.
O pior era o silêncio. Antes, ele reclamava das vontades dela, das manias, da forma como ela ocupava os cômodos com a voz e o perfume. Agora, seu andar no palácio parecia uma tumba, e Dmitri havia entendido que um homem viúvo não era apenas triste, era também, secretamente, um homem com raiva. Raiva de ter sido deixado para trás. Raiva de ter que recomeçar. Raiva de, sete meses depois, ainda sentir o cheiro de carne queimada quando o vento mudava de direção.
Sentado na sala VIP do aeroporto, aguardando a chegada da elusiva princesa, Dmitri abriu o celular para se distrair. A tela exibia o relatório mais recente de James Alcoa sobre movimentações suspeitas na fronteira leste. De células não-tão-adormecidas fluía dinheiro para contas que deveriam estar congeladas. O nome de Sasha Abramov aparecia entre parênteses, não-confirmado, como suspeito, o que era pior, porque significava que a terrorista continuava inteligente o suficiente para não deixar rastros.
— Você já leu esse relatório umas cinco vezes — disse Verushka, sentada na poltrona ao lado, as pernas cruzadas, estudando-o com aquele misto de franqueza e preocupação que ela nunca se dava ao trabalho de disfarçar.
— Estou na quarta — corrigiu ele.
Verushka sorriu.
— Tem alguma coisa nova desde a última?
— Não.
— Então, não é o relatório que você está lendo.
Não, não era. Dmitri fechou o aplicativo e guardou o aparelho. A irmã enxergava através de pedra e, naquele momento, através dele. Conferiu no relógio que sua noiva estava atrasada por quase vinte minutos. Ou, para ser preciso, um dia e vinte minutos, porque o pai dela chegou ontem sozinho, com a desculpa de que ela precisou ficar em Paris para a última prova do vestido.
Só de pensar em Scarlet ficava de pau duro, e irritado na mesma medida, porque não queria sentir nada por mulher nenhuma. Menos ainda por uma que atrasava de propósito e contava que ele soubesse isso.
Qual era a mulher que modificava todo um planejamento de um país por causa de um vestido?
Pelas janelas da sala VIP, ele percebeu a movimentação da guarda-real, o que lhe disse que o avião de sua noiva deveria estar chegando.
— James — chamou, sem levantar a voz.
O chefe segurança do rei apareceu antes que ele terminasse de dizer o nome. Konstantine o havia cedido ao irmão até a cerimônia, e Alcoa parecia ter o dom de estar em todo lugar e em nenhum.
— Alteza.
— Algo mudou desde ontem?
Porque as ameaças contra o reino cresciam na mesma proporção que os preparativos da cerimônia.
— Não para melhor. — Alcoa meneou a cabeça. — A Sekretar Borodin quer discutir a fronteira leste com o senhor hoje ainda. Dinheiro novo continua pingando em contas que deveriam estar congeladas. A fronteira leste está agitada. E o nome Abramov foi ouvido novamente.
Sasha Abramov. A mulher que o mundo inteiro havia jurado ser homem, até Annika revelar o contrário. A dona dos DragonSlayers, da bomba da biblioteca, da manhã de maio que virou fumaça e que matou Nina.
E em poucos dias, Dmitri colocaria outra mulher bem no centro daquela mira. Por escolha própria.
— Quero o trajeto até o Dilkiso revisado outra vez — disse. — Telhados, janelas, todos os pontos altos.
— Já está sendo feito.
— Faça de novo.
— Sim, senhor — Alcoa inclinou a cabeça.
— Você não vai conseguir blindar a cidade inteira. — Konstantine se aproximou, ajeitando os punhos. — Nem ela.
— Posso tentar.
— O jato da princesa recebeu autorização para pousar — confirmou Alcoa. — Está descendo.
Dmitri se levantou, abotoou o paletó. Verificou os punhos da camisa, em um gesto automático, o corpo obedecendo ao protocolo, enquanto a mente trabalhava em uma frequência completamente diferente.
— Dmitri.
Virou-se para Konstantine.
— Tente não parecer que vai para um funeral — disse o rei, com uma careta. — Vão ter câmeras lá.
Ele sorriu, porque sabia que não era uma piada gratuita.
— Vou tentar — falou, pegando o casacão, porque do lado de fora estava frio.
— Com mais convicção — ordenou, seco, fez sinal para as irmãs mais novas e saiu com elas.
— Ninguém pediu para você subir no altar no lugar de ninguém — disse Maxim, baixo. — Agradecemos, mas, já que o fez, ao menos, sorria e tente aproveitar. Finja que não é castigo.
— Até porque não vai ser sacrifício levar aquele mulherão para a cama — completou Nikolai.
Um amargor subiu pela garganta de Dmitri, quente e rápido. A vontade foi de agarrar o irmão pela gola e perguntar se ele queria repetir. Talvez, nem perguntar nada, só enfiar o punho no meio da cara.
Ela não é minha.
Não era. Ainda. Era um contrato de Konstantine, de Zahara. Um dote para encher os cofres depauperados, uma linha no orçamento de um reino quebrado. Não havia honra para defender e, afinal, o irmão não disse nada demais. Mesmo assim, ainda lembrava da raiva que sentiu quando o pai a esbofeteou diante de todos com tanta força que ela caiu ao chão; e que Maxim foi o primeiro a se adiantar e levantá-la. O ciúme cravou as garras nele e isso o assustou mais do que quaisquer ameaças externas.
— Algum problema? — Nikolai notou sua carranca.
— Nenhum. — Dmitri abotoou o paletó. — Mas deixe Maxim continuar falando da minha futura esposa assim e ele vai descobrir quantos dentes dele eu consigo arrebentar com um soco.
— Já vejo o avião — falou Ivan, futuro marido de Verushka, e pegou Maxim pelo braço, puxando-o da sala.
Verushka pigarreou e avançou, ajeitou a gola do casaco, o sorriso de sempre.
— Ele não falou por mal, só estava querendo te animar — sussurrou, suave. — E Scarlet é uma mulher extraordinariamente bonita.
Dmitri engoliu o suspiro e ofereceu o braço à meia-irmã. Juntaram-se à comitiva quando as rodas do jato da Casa Al-Adaman tocaram o solo. O cerimonial dos dois palácios havia trabalhado três semanas naquilo e o resultado cabia em quatro linhas: recepção da família no fim do tapete, fotografias, desfile só do casal até o Dilkiso, beijos em pontos marcados no mapa.
Alguém havia sentado numa mesa, aberto uma planta de Sankt Zara e decidido em que esquina ele deveria beijar a boca da mulher com quem ia se casar.
Os fotógrafos tinham sido escolhidos um a um e estavam esperando para registrar tudo e enviar para as mídias digitais e impressas ao redor do mundo. Nenhuma pergunta, nenhuma entrevista, nenhum ângulo que não estivesse aprovado desde a semana anterior. Tudo calculado para espremer a última gota do furor que a varanda havia provocado na população.
O avião parou precisamente onde o tapete vermelho estava estendido e a porta se abriu.
Scarlet apareceu no alto da escada e o mundo, por dois segundos, deixou de existir. Sem a vida inteira de treinamento na realeza, Dmitri teria tropeçado nos próprios pés ao se adiantar com Verushka e Konstantine para recebê-la. Porque, como disse a irmã, a futura esposa era uma mulher extraordinariamente bonita.
Não estava preparado para a deusa de queixo erguido descendo os degraus como quem inspeciona domínios. Mesmo sob a luz do dia nublado, o cabelo ruivo flamejava. A roupa, um tanto extravagante, era, na verdade, uma declaração que joias exuberantes ou outros símbolos de poder ou status não conseguiriam.
O casacão bege aberto deixava entrever o vestido justo, com decote discreto. Uma estampa – ou bordados, ele não saberia dizer – impressionava. Nas cores da bandeira de Ras Adaman, prata e vermelho, do lado direito havia o grifo que se transformava para o lado esquerdo sobre o peito em uma fênix flamejante nas cores de Zahara, dourado e carmesim.
Talvez, a metade de baixo fosse o passado; e a de cima, o futuro. Porém, debaixo da roupa, da arrogância e da altivez do olhar, Dmitri viu outra coisa: timidez. Uma timidez que Scarlet disfarçava tão bem que a maioria confundiria com prepotência e arrogância. Estava ali na rigidez excessiva dos ombros, nos dedos que apertavam a alça da bolsa, no olhar que não pousava em lugar nenhum por mais de um segundo.
Aquela timidez seria sua perdição, porque Scarlet usava o que para outras pessoas seria fraqueza como arma. A vulnerabilidade disfarçada de poder, a insegurança travestida de altivez. E ele, que havia passado sete meses construindo muralhas para não sentir nada, se pegou irritado com a constatação de que o ar dissimulado daquela mulher podia desarmá-lo.
E Scarlet desceu a escada com a graça treinada de quem havia sido preparada para esses momentos desde criança, como se o aeroporto fosse dela e o reino, um detalhe do contrato. Dmitri detestou a admiração involuntária e repentina antes de terminar de senti-la.
— Bem-vinda a Zahara, princesa Scarlet — saudou Konstantine.
— Obrigada, Vossa Majestade.
Depois foi a vez da irmã, como co-governante de Zahara, que lhe entregou um buquê de peônias rosadas, quase brancas.
— Seja bem-vinda à nossa família, Scarlet.
— Obrigada, Verushka. — Trouxe as flores para perto do rosto, cheirando-as. — São lindas.
— São nativas de Zahara e um de nossos símbolos — disse a irmã.
Dmitri foi o próximo. Para frustração dos fotógrafos, que talvez esperassem mais, passou o braço pela cintura e encostou os lábios nos dela, rápido.
— Bem-vinda, Scarlet.
— Obrigada. — Os olhos dela subiram para os dele, verdes, firmes. — Peço perdão pelo atraso, o tempo estava ruim em Paris e tivemos que esperar a liberação da torre para decolar.
— Foram só alguns minutos. — Ele deu de ombros, com um tique no canto da boca que não chegava a ser um sorriso — Nem percebi.
— Quem estava contando, não é?
Ele estava e era a primeira fissura na indiferença de pedra chamada coração que ele pretendia exibir o resto da vida, e detestou cada milímetro dela.
Scarlet cumprimentou as irmãs e os irmãos mais novos, um a um, com a mesma cortesia e simpatia, a voz controlada, e depois pousou a mão no braço que ele ofereceu. Os dedos desmentiram o controle: tremiam de leve.
Eles posaram para fotografias com a família inteira e só os dois. Os fotógrafos insistiram com pedidos de um beijo, mas Dmitri sorriu e pressionou a mão nas costas de Scarlet. Os outros se dirigiam para os blindados para voltar direto para o palácio.
Não deram entrevistas também, nem um comentário. Acenaram e, em silêncio, se dirigiram para o Bentley aberto que os conduziria pela cidade. Dmitri pretendia continuar assim. Silêncio era a barricada mais eficiente que possuía, e quanto menos compartilhasse com aquela mulher, menos brechas abriria.
O carro era aberto.
Dmitri havia perdido essa discussão com o cerimonial, com a assessoria e com o próprio irmão. Carro aberto, avenida fechada, público a doze metros, quarteirões de sacadas ocupadas e uma mulher sentada ao lado dele com nada entre a pele dela e a cidade inteira.
Multidão contida por grades, cartazes feitos à mão, câmeras e flashes. Horário divulgado com uma semana de antecedência. Uma mulher em cima de um palanque, sob a responsabilidade dele, ao ar livre.
A cidade era outra. A situação era a mesma.
Até achou bom quando, em cima da hora, ela cancelou a chegada ontem e transferiu para hoje.
Enquanto acenava, observava os telhados, um pesadelo logístico, mesmo com Alcoa colocando homens em quase todos, reduzindo a possibilidade de serem usados como alvos. Dmitri sorriu para a esquerda, sorriu para a direita e conferiu as sacadas do quarteirão seguinte. Nada suspeito, mas no dia em que Nina morreu ele também não suspeitava de nada.
Scarlet também não parecia preocupada. Com um sorriso impecável, acenou para a multidão afastada por barreiras de ferro e um cordão de isolamento feito por homens armados e completado por soldados a cavalo, e perguntou para ele:
— Quantos minutos a gente vai ter que fingir?
Com as bandeiras de Zahara e Ras Adaman balançando juntas nos postes, vermelho e prata entrelaçados com dourado e carmesim, Dmitri achou melhor não atiçar o touro e perguntar:
— Fingir o quê?
— Isto. — Gesticulou discretamente com a outra mão e abarcou os dois, o carro e a avenida. — Paixão. Felicidade.
— Pelo tempo que for necessário. — Ele virou o rosto para ela pela primeira vez desde que o carro saiu. — Fofoca da realeza faz o povo esquecer dos problemas econômicos e políticos.
— Ah.
Um buquê caiu dentro do carro. Ele se abaixou, pegou-o e discretamente o inspecionou.
— Não o aproxime do rosto — murmurou entredentes, ao passar para a mão dela, segurando seu pulso.
Ela o trouxe ao peito, fingiu cheirar e o ergueu, agradecendo ao povo, que ovacionou.
Ele aproveitou para cumprir o beijo previsto pela RP. A mão de Dmitri deslizou pelas costas dela, sentindo cada vértebra através do vestido, parando na curva da cintura, avisando. Puxou-a para os seus braços, tomando sua boca com gentileza. Era para ser um beijo suave, curto, quase que ensaiado, mas bastou suas bocas se encontrarem para que o ar dentro do carro se tornasse combustível.
Uma parte dele que passou mais de um mês sem sentir o gosto dela – e querendo mais – rosnou. A mão na cintura dela apertou, trouxe-a ainda mais para perto. Mais perto do que a RP sugeriu, mais do que dois estranhos precisavam estar para fingir paixão e felicidade em um banco de carro.
A gentileza durou o tempo que ela levou para soltar um som baixo. Um susto, talvez, ou uma permissão, ele não saberia dizer, mas o controle escapou como areia por ampulheta quebrada. Os dedos se enterraram nos fios ruivos que ele jurou não tocar. O casacão bege escorregou dos ombros. Ele a puxou contra o peito.
O beijo se aprofundou sem aviso e os lábios dela se abriram sob os dele com uma entrega que contradizia cada fibra da postura engomada que ela exibiu minutos antes. A mente de Dmitri, que deveria estar calculando ângulos para os fotógrafos e cronometrando segundos para o protocolo, inflamou. O sangue desceu quente e pesado e seu pau endureceu contra a coxa.
O mundo do lado de fora – a multidão, os flashes, o papel caindo do céu – virou ruído. Restou o relevo do quadril dela contra a palma da sua mão, o calor do seu corpo contra o dele, o perfume doce que subia do pescoço macio; o gemido abafado que ele engoliu com fome e os dedos dela, trêmulos e crispados no paletó dele, como na varanda; a vontade animal e absurda de rasgar o vestido caro com as duas mãos – ou só levantá-lo mesmo – virá-la e afundar-se naquele corpo. Ele iria fodê-la contra o couro do banco, na frente de uma cidade inteira que aplaudia, assoviava, acreditando ver um conto de fadas enquanto o que se desenrolava era uma fábula diabólica.
Na varanda, cinco semanas antes, havia sido ele a se afastar primeiro. Senhor do próprio corpo, do gesto, dela. Ali, no banco de couro, o corpo se recusava a obedecer. Foi o estouro de um canhão – não ele –, que interrompeu o beijo. Dmitri desgrudou os lábios dos dela, ofegante, buscando ar, a mão ainda apertando sua nuca, os dedos enroscados nos fios ruivos.
A última vez que aquilo aconteceu com ele dentro de um carro foi parado na frente de uma biblioteca.
O mesmo aperto no saco; a mesma pressa idiota e a certeza imbecil de que o resto do dia era só um obstáculo entre ele e uma tarde. Naquela manhã, ele precisou se ajeitar dentro da calça para poder sair do carro, subir os degraus e cumprimentar a diretora, amaldiçoando as horas que faltavam para terminar o evento. Minutos depois Nina estava debaixo de pedra e ele não. Foi com o corpo excitado e a mente desfocada que ele escolheu o lugar onde a primeira esposa morreu. Estava repetindo tudo de novo.
Ele havia ficado louco? Para completar, o motorista estava no banco da frente e os fotógrafos e cinegrafistas tinham suas lentes telescópicas apontadas para eles.
Encostou a testa na dela por um segundo, a mandíbula tão trincada que doía enquanto as palmas se juntavam aos assobios. Scarlet tinha os lábios vermelhos, a maçã do rosto corada e o peito subia e descia tão rápido que o vestido justo não escondia. Nos olhos verdes não havia altivez, nem pose, nem timidez armada. Havia fome e pânico.
E mais, Scarlet o observava, com a atenção afiada de quem acabava de descobrir uma informação preciosa: o homem que jurava não sentir nada tinha, por alguns segundos, deixado de comandar.
Seus dedos haviam achado o zíper nas costas dela e o pensamento de descer aquele zíper, de ouvir o som que ela faria, foi quase mais do que ele conseguia recusar, mas soltou-a devagar e ajeitou o casaco sobre seus ombros, pois estava frio e o carro era aberto.
Respirou fundo, exalou bem devagar.
— Fiquei sabendo que foi ideia sua. — Apontou para os pedacinhos disparados pelo canhão que ainda flutuavam e coloriam o ar e pousavam nas pessoas, nos cavalos, no capô.
Como o pai dela estava pagando todo o casamento, claro que ele aprovou a extravagância. E catalogou, como fazia com tudo sobre aquela mulher: dados, observações, detalhes que não queria saber, mas que chegavam até ele mesmo assim.
— O papel-semente? — Ela pareceu surpresa que ele tivesse falado. — Foi.
Não era papel comum. Não era nem papel, no fim das contas. Segundo Igor, Scarlet não havia pedido, havia exigido. Não poluíam, pois eram solúveis. Se fossem recolhidos pela população, poderiam ser plantados. Se chovesse ou ventasse, se fossem carregados para o esgoto, ou varridos, brotariam sozinhos em algum canto da cidade, daqui a alguns meses, sem que ninguém se lembrasse ou tivesse o trabalho de plantá-los.
Uma mulher de vinte e um anos havia encontrado um jeito de Sankt Zara continuar florescendo e o povo sorrindo para ela depois que as câmeras fossem embora. Não era futilidade. Era campanha de marketing de altíssimo nível.
— Meu secretário disse que até no lixo vai nascer flor.
Igor havia dito aquilo com a cara mais seca do mundo, e Dmitri até hoje não sabia se era elogio ou deboche. Como o trabalho do homem era impecável, havia decidido não perguntar.
— O trabalho dele é impecável — devolveu Scarlet. Fez uma pausa de alguns segundos e insistiu: — Gostou, então?
— De quê?
— Do papel-semente.
Dmitri olhou para fora. Promessa caindo do céu sobre uma cidade que estava sendo enganada pela história que eles estavam vendendo, não podiam descobrir jamais a verdade.
— É interessante. Ecológico.
Scarlet riu, baixinho, de verdade, e o som o pegou desprevenido.
— Ecológico. — Balançou a cabeça e virou o rosto para a janela. — Finja que é romântico, Dmitri. Pelo menos, hoje. As câmeras estão olhando.
Dmitri não respondeu e ficou observando-a. Foi criada na realeza, mas o sorriso que havia sido contido para os fotógrafos mudou para o público. Era largo e genuíno.
— Quanto tempo até o palácio? — voltou ela à carga.
Ela sabia quanto tempo. Estava descrito no protocolo do desfile, mas ele olhou o relógio e respondeu:
— Vinte minutos.
— Dá para fazer muita coisa em vinte minutos. Conversar, por exemplo.
— Não sou de muita conversa.
— Reparei. Você fala pouco e gosta de silêncios. E olha o relógio. Olhou duas vezes no aeroporto, duas desde que entramos no carro e agora de novo. Estou contando.
Aquela mulher reparava em algo que ele jurava esconder bem.
— Silêncio de novo. Vê? — Ela sorriu, virando-se para ele. Os olhos verdes brilharam. — É a sua resposta para tudo?
— É a mais segura.
— Que romântico — debochou.
— Não prometi romance — lembrou a ela, mas ele queria provar se o gosto do pescoço era o mesmo do beijo, queria ouvir sua respiração ficar ofegante enquanto ele enfiava o pau fundo nela.
— Não. — Algo passou pelo rosto dela, rápido demais para ele nomear. — Prometeu casamento, um título e lealdade. Meu pai prometeu dinheiro para vocês me tirarem da responsabilidade dele. Eu li o contrato, Alteza. Supus que a parte sobre afeto estivesse em letra miúda.
— Se leu a letra miúda, por que está puxando conversa?
— Porque estava errada. Não havia letra miúda. Não havia nada sobre afeto, nem romance. Mas vou dormir do seu lado pelo resto da vida. — Ela sustentou seu olhar e o sorriso de vitrine sumiu por um segundo. — E prefiro conhecer um pouco mais do homem com quem vou me casar antes da cerimônia. Até agora, só descobri que você fala pouco. E beija muito bem.
O corpo de Dmitri respondeu prontamente à provocação, mas a mente conseguiu responder:
— Foi protocolo.
— Foi. — Ela inclinou a cabeça, estudando-o, e os cantos da boca subiram. — Protocolo demorado. A internet toda reparou antes, vai reparar de novo quando saírem os vídeos desse beijo.
— Cuidado com o que provoca, ruiva — avisou, com um sorriso falso. Porque o pau estava mais duro e ele queria a língua dela enrolando na glande, aqueles lábios de boneca esticados ao redor dele, o som que ela faria se ele empurrasse até sua garganta. — Você pode acabar descobrindo que tipo de homem eu sou antes de quinta-feira.
O desejo queimou, brutal, indecente, impossível de disfarçar debaixo do tecido da calça. A mão direita fechou-se sobre o joelho, os nós dos dedos esbranquiçados, um freio que ainda respondia. Sete meses de muralha exigiam quietude. O corpo votava contra, mas ele forçou o ar para dentro e controlou a mente rebelde.
Scarlet não recuou, mas o brilho no olhar dela mudou, ficou mais afiado, a voz mais rouca, denunciando seu estado:
— Promessas, promessas.
A multidão gritou o nome deles, sem saber que a princesa que acenava estava prestes a ser devorada por uma besta enfurecida.
No entanto, a besta havia assinado um maldito contrato e nele havia uma cláusula que o pai dela exigiu: nada de relações sexuais antes da cerimônia religiosa que só aconteceria daqui a sete dias. Cento e sessenta e oito horas. Dez mil e oitenta minutos até que o cardeal Radu dissesse as palavras que o transformariam em marido. Até lá, Scarlet dormiria no quarto ao lado do dele; se cruzariam pelos corredores, dividiriam refeições, e ele teria que suportar dias inteiros inalando o perfume dela, assistindo àquela boca proferir provocações sussurradas, lembrando-se do gosto, sem poder derrubar a porta do quarto dela.
A mão fechou-se em um punho para não a agarrar. Até quinta-feira, precisava se controlar. Depois… Ah, depois nem tanto.
[i] Niet, nas línguas eslavas, como o russo, quer dizer não.
[ii] Baba, em árabe, é pai.
[iii] Wallahi, em árabe, quer dizer eu juro; por Deus.
CAPÍTULO 1 — DMITRI
Espero que tenham gostado. Vocês serão avisados do lançamento!
A redação original pode mudar.

